No atelier,
a pintar e a gravar (água-forte).
A ler "A Fera na Selva"
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A FERA NA SELVA, de HENRY JAMES, uma leitura
Uma expectativa comum forma a aliança entre John Marcher e May Bartram.
Esta é um elo magnético entre os dois, uma força rara de aproximação - porque raro e tenso é o encontro dos que partilham um segredo e nisso fundam a verdadeira intimidade.
O que profundo podemos partilhar é o nosso sentido, ou seja, a direção em que vamos, ou o não saber se vamos, porque queremos ir, ou se somos idos, porque o que nos surgiu nos lançou e não o escolhemos. Trágica, afinal, é a irreversibilidade. Trágico é - o movimento do tempo - ser irreparável.
Que forças nos orientam?
É preciso viver para qualquer coisa.
A história de Marcher diz-nos de um dever de atenção. Este é como uma inspiração - e, se falha nele houve, foi a de um excesso de consciência, porque não se pode estar demasiado preparado... O excesso de expectativa enreda a sorte.
O que descobrimos com Marcher é aquele espanto, a súbita compreensão do destino - como aquele ah!, que fez Édipo cegar-se perante o choque do cumprimento do que nele foi profecia, fado e fatalidade. Marcher é personagem trágica: ele sentia-se destinado. Era então pesado.
Na selva, um passo leve terá distração e dança. Há um saber algures, um enigma, um sentido que é em si segredo vedado à nossa consciência.
Que não falte, na nossa passagem por esta selva, a joia preciosa da aliança da intimidade.
Que esteja presente em nós a ferida viva da irreversibilidade.
Que não nos falte o suspense que, da fera, aguarda o salto.
Porque o tempo é salto e a vida é fera.